Reindustrializar a Europa e Portugal: é hora de agir
A Europa tem conhecimento, talento e uma base industrial relevante. Mas reindustrializar implica desburocratizar e criar condições reais para que as empresas queiram investir.
A Europa assentou, durante as últimas décadas, muita da sua competitividade na otimização dos custos de produção. Produziu onde a mão de obra era mais barata, onde os custos com energia eram mais competitivos ou onde existiam condições mais favoráveis.
Esse modelo funcionou enquanto o velho continente inovava e liderava o desenvolvimento de novos produtos e remetia para fora o fabrico. Mas os tempos mudaram e o jogo está a inverter-se. Países que, até então apenas produziam, hoje ganharam autonomia e conseguem inovar e liderar o desenvolvimento de novos produtos em várias áreas.
Num contexto global mais competitivo, reindustrializar deixou de ser uma opção: tornou-se uma necessidade estratégica. Acelerar este processo é crucial sob pena de perdermos competitividade, autonomia e talento.
Mas não há reindustrialização sem mais e melhor inovação. Ao nível da inovação, os alertas também se multiplicam. A Europa perdeu velocidade e tem assistido ao avanço de outras geografias. O relatório Draghi identifica três grandes frentes de ação: colmatar o défice de inovação em relação aos EUA e à China; desenvolver um plano capaz de alinhar descarbonização com a competitividade; e reduzir as dependências internacionais.
A Europa tem conhecimento, talento e uma base industrial relevante. Mas reindustrializar implica desburocratizar e criar condições reais para que as empresas queiram investir, crescer e produzir aqui. É preciso que a Europa seja competitiva nos custos, nas políticas fiscais, nos incentivos e na alocação de capital privado.
Inovar mais e melhor, implica mobilizar mais capital privado, melhor política fiscal, menor complexidade regulatória, menor fragmentação do financiamento e implica fazer escolhas, ainda que não isentas de risco. Sem escala e sem foco, não conseguimos competir. Sem coordenação, desperdiçamos recursos e corremos o risco de ver empresas europeias saírem da Europa quando precisam de crescer.
A razão desta “fuga” é fácil de explicar: nos EUA, por exemplo, encontram escala e acesso a investidores propensos ao risco. Além disto, a Europa tornou-se um espaço onde é difícil testar, escalar e levar soluções ao mercado. Um carro autónomo ou um processo industrial disruptivo enfrentam barreiras que atrasam a inovação. Enquanto isso, os EUA e a China testam, ajustam e escalam mais depressa.
A competitividade europeia exige um novo equilíbrio.
E Portugal? Portugal é uma versão à escala destes problemas e desafios, amplificados pelas nossas próprias idiossincrasias e pela pequena dimensão das empresas e da economia. Também aqui precisamos de criar condições para acelerar, ganhar escala, subir nas cadeias de valor, inovar mais e mobilizar mais capital privado.
De um lado, temos grandes empresas, e mesmo algumas marcas, com presença internacional, com capacidade de investimento, inovação e acesso a redes globais; do outro, muitas pequenas e médias empresas com menor escala e maior dificuldade em aceder a financiamento, inovação, mão de obra e mercados. Com mais uma dezena de empresas do primeiro grupo, seríamos uma economia diferente. Urge acelerar esta transição. Uma empresa que não cresce ao longo dos anos, não fica no mesmo lugar: fica para trás porque os outros continuam a avançar. O mesmo acontece com um país.
Há, felizmente, sinais positivos. Em termos competitivos, Portugal está hoje melhor do que há 20 ou 30 anos. Exporta mais e com mais valor acrescentado, já é reconhecido nas engenharias e nas ciências e tem uma nova geração de empreendedores muito mais propensa ao risco. Para muitos jovens qualificados, criar uma empresa deixou de ser uma excentricidade e passou a ser uma opção real. Há esperança!
A Europa tem de acelerar na inovação e na sua reindustrialização. Portugal também. De cada vez que não avançamos, recuamos. É hora de agir.