A Soberania Tecnológica Europeia também se fabrica em Portugal
Neste novo paradigma industrial, as empresas que desenvolvem tecnologias de produção assumem um papel central e, em muitos casos, estratégico para a soberania tecnológica europeia.
A Europa enfrenta uma escolha estratégica: ou liderar a fase final da 4.ª Revolução Industrial ou aceitar uma dependência crescente da soberania tecnológica e produtiva de outras geografias. Depois da pandemia, da crise energética e da crescente fragmentação geopolítica na Europa, a soberania tecnológica deixou de ser um conceito abstrato para se tornar uma condição de segurança económica e de competitividade. Tecnologias como computação avançada, cloud industrial, inteligência artificial (IA), cibersegurança e semicondutores tornaram-se ativos estratégicos. Neste novo contexto, as empresas portuguesas têm uma oportunidade rara de integrar as cadeias de valor digitais europeias e afirmar a capacidade tecnológica em áreas decisivas para a autonomia industrial da Europa.
Consciente de que a soberania tecnológica depende cada vez mais da capacidade de levar inovação à indústria, a Europa começou a construir uma nova geração de infraestruturas digitais e industriais. Plataformas de IA on-demand, ambientes regulatórios de experimentação (AI sandboxes), espaços comuns de dados industriais e toolboxes digitais estão a criar as condições para acelerar a adoção tecnológica pelas empresas e reduzir dependências críticas em áreas estratégicas. A disponibilização destas infraestruturas está a alterar profundamente a política industrial europeia, colocando as cadeias de abastecimento digitais, a capacidade de processamento de dados e o acesso a infraestruturas tecnológicas no centro da soberania económica e da competitividade industrial. Hoje, a indústria transformadora representa mais de 14% do PIB europeu e emprega cerca de 35 milhões de pessoas, mas enfrenta uma corrida global acelerada pela digitalização industrial, pela automação avançada e pela reorganização das cadeias de valor tecnológicas. Neste novo paradigma industrial, as empresas que desenvolvem tecnologias de produção assumem um papel central e, em muitos casos, estratégico para a soberania tecnológica europeia. É através delas que o software industrial avançado, os sistemas autónomos, as plataformas de otimização operacional e as soluções inteligentes de monitorização chegam ao chão de fábrica e transformam as operações industriais em sistemas mais eficientes, flexíveis e resilientes.
Neste contexto, a Agenda Mobilizadora PRODUTECH R3, apoiada pelo PRR, assume particular relevância ao acelerar a aplicação destas tecnologias em ambiente industrial real. Soluções como sistemas inteligentes de assistência remota para a logística industrial, algoritmos de escalonamento dinâmico da produção, modelos virtuais de simulação industrial e sistemas automáticos de inspeção de defeitos demonstram como a integração entre software avançado, dados industriais e automação se tornou um fator crítico para a competitividade da indústria portuguesa.
A concretização deste fim de ciclo de inovação industrial exige investimento contínuo, capacidade de experimentação tecnológica e forte articulação entre a indústria, o sistema científico e o ecossistema de inovação. Os fundos europeus têm sido decisivos para acelerar este processo, não apenas como instrumentos de financiamento, mas também como mecanismos de alavancagem económica capazes de transformar conhecimento em valor industrial, competitividade e capacidade exportadora. Programas apoiados pelo PRR e por iniciativas europeias de reindustrialização têm permitido reduzir o risco associado à adoção de tecnologias avançadas, acelerar a transferência de conhecimento para o mercado e criar ecossistemas colaborativos orientados para a produtividade, a diferenciação tecnológica e a criação de valor acrescentado. É neste contexto que o contributo do Instituto CCG/ZGDV assume particular relevância estratégica.
Num cenário em que a competitividade industrial depende cada vez mais da capacidade de transformar conhecimento em aplicação prática, o Instituto CCG/ZGDV tem vindo a afirmar-se como um dos atores relevantes do ecossistema nacional de investigação e inovação. A sua atuação na interseção entre engenharia de software, inteligência aplicada e sistemas industriais tem permitido apoiar empresas na adoção de soluções tecnológicas avançadas orientadas para ganhos de produtividade, eficiência operacional e sustentabilidade. Mais do que desenvolver tecnologia, o Instituto CCG/ZGDV tem contribuído para aproximar a investigação aplicada às necessidades concretas da indústria, reforçando a capacidade do cluster português da indústria transformadora e das tecnologias de produção para integrar uma nova geração de cadeias de valor industriais mais digitais, conectadas, resilientes e tecnologicamente soberanas.